Cepões de Aquilino

17. 05. 01
posted by: Super User
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Aquilino Ribeiro, na sua obra Geografia Sentimental, descreve a sua passagem por estas terras. Vivia-se então na era das diligências que partiam de de Viseu, descendo a Rua do Arco e atravessando a Porta dos Cavaleiros, rumo a Barrelas e às Terras do Demo: esses territórios bravios, onde se diz que Cristo não passou.

 

Hábitos e sabores sempre atuais

“Em Cepões, como nos breviários dos frades, com os passos rituais: hic bibilur, hic pitatur, tomava-se o seu quodore, sorte de viático para a escalada. Sempre havia quem trouxesse farnel, os clássicos bolinhos de bacalhau ou trutas de escabeche em merendeiros de folha. (…)

 

Na Taverna de Cepões

“Na taverna de Cepões havia três amores de raparigas, planturosas e gentis como as três graças de Ticiano. Mas eram beldades de meias-águas, dadas a esta espécie de homens que se situam entre o fidalgo e o cavador. Por quem elas se perdem, e estas afinal se perderam, são os choferes, ontem os cocheiros, os tocadores de banza, os resineiros, os caixeiros de amostras. Pareceu-me que professavam um soleníssimo desprezo pela minha gravata e as minhas mãos brancas de estudante. (…)

 

O Acidente

“Nos côncavos do Vouga acontecia por vezes a neblina ser tão densa, que as lanternas pouco cortavam para lá da garupa dos cavalos. O cocheiro, embora experimentado do itinerário, ia tacteando o trilho palmo a palmo, receoso dos precipícios. (…) De súbito rebentou uma grande trabucada na diligência, ao passo que se desequilibrava toda sobre o flanco: cuspido do assento, senti-me voar no espaço. Sem grande assombro, antes achando graça ao acidente, encontrei-me no fundo do abismo, pode dizer-se, sentado num monte de caruma. (…) Tinha sucedido que uma das rodas resvalara para a rampa sem resguardo, e a traquitana ficara suspensa sobre o desfiladeiro. Quebraram-se os frascos com remédios e uma menina esmurrou o nariz. Palpei-me duas vezes: não tinha a mais leve beliscadura. Mas se não é aquela moreia de agulhas de pinheiro, era uma vez um rapaz vadio e desaparafusado. (…)”